Uma navegada pela Lagoa dos Patos

Publicado por MOBI - Agência Digital

Depois de quinze dias em Campo Bom estava como pato fora da água, chegando a dar água na boca só de olhar as fotos das nossas navegadas.  Chegando em Rio Grande dois dias depois, resolvemos sair para tirar o estresse… Inicialmente pensamos na Ilha Grande pois uma velejada de alguns dias sairia todo o  nosso estresse, mas surgiu aquela vontade de ir a Porto Alegre, promessa feita a Maria Teresa de conhecer a Lagoa Dos Patos, já que a Merin falta só a parte sul .

Chegando ao clube para pensar nos preparativos, tive a surpresa de que o pau de carga estava sem condições de uso ,pois a draga estava começando a operar ali.  O canal de saída seria fechado para a dragagem, ficando fechado por um bom tempo…. então resolvi tirar o Colibri para o caís externo, ainda sem água e luz e sair de qualquer maneira.O barco estava com caracas, só não sabia a quantidade, imaginava que teria bastante. Colocamos combustível e um rancho para chegar a Porto Alegre ,ai já planejamos nossa rota, seria Porto Alegre se o tempo permitisse .

Na manhã do dia 4 de janeiro largamos cedo do cais ,um pouco nublado mas com um sueste calminho para começar a velejada, se o tempo colaborasse. Seguimos o canal Miguel da Cunha até a girafa de São José do Norte, rumando dali ao Mendanho e posterior ao Diamante. Chegando ao Diamante, nosso rumo foi direto a Ponta Rasa, para entrar no canalete da Varzea com todo seu serpenteado de calões e curvas .

Havia muitas embarcações de pesca na captura da tainha ,e também estavam preparando os calões para a safra do camarão, que iria começar dia primeiro de fevereiro.  Na entrada do canalete da Varzea o vento virou de lesnordeste,  bem de proa e muita correnteza de vazante. Ai me dei conta do que tinha de caracas o barco… deveria ter uma velocidade de uns cinco milhas, mas estava andando a uma milha ponto oito… segui meu tranquito, mas sabendo que não chegaria muito longe assim .Resolvemos então seguir passando do canalete da Varzea para o canalete do Saco do Rincão. Continuaria só de grande em proa,e bordejando no meio do paliteiro. Passamos em frente aos barrancos onde minha familia de pescadores moram e tem suas embarcações. Seguimos viagem para não chegar tarde ao Giral, uma bela prainha que da abrigo de norte a sudoeste e ainda poderia mergulhar para me livrar um pouco das caracas . Chegando lá era cedo ainda, deu para colocar a roupa de mergulho, pegar uma espatula de aluminio e começar o baile.  Ai sim fiquei perplexo com a quantidade… por sorte a água bem quente estava uma delicia verde e transparente. Só não pude limpar muito, porque os stenders do coração podem fugir pela boca. Limpei o que deu, e também um pouquinho da hélice, pois estava sem feitio, depois fui descansar… com aquela paisagem fantástica,  enquanto a Maria Teresa preparava a janta regada ao vinho, porque eu não sou de ferro.

Passamos uma noite tranquila e calma . Pela manhã saímos a motor, pois estava muito calmeiro. Seguindo meus wpts até o farol do estreito e dali negociando com o paliteiro na correnteza de proa, e o vento calmeiro também bem orçado. Estavamos na altura das Cariocas,  vendo os pesqueiros ao longe… um me chamou no vhf e me pediu para arribar mais na proa dele, se não iriamos passar encima da rede. A Maria Teresa estava timoneando, me olhou e disse essa rede esta ligada com o outro pesqueiro, a duas milhas mais a terra como fazem isso …ai respondi não tem quem controle. Passamos a proa dele e vimos… ele fazendo força, com o motor engatado avante magino, que levantando tudo.

Chegamos a Barra Falsa, eram quatro horas e fomos para meu lugar favorito, o cais do engenho. Estou acostumado a entrar a noite e não erro nunca. Chegando no cais, fico no lado da taipa, que tem uma prainha de rampa. Ai o barco chega ao cais, mas fica quietinho para poder limpar; mesma operação só que desta vez sem roupa de mergulho, com direito a banho com o pinguinho. A Maria Teresa tomou de balde, pois os lambaris começaram a morde,r por causa do sabonete, ela preferiu no convés. Passamos outra noite tranquila, com calmaria e direito a um belo luar .

Amanheceu levei o pinguinho para um passeio e saimos, na calma do amanhecer. Lá fora já tinha um sueste calmo,  deu para desligar o motor fazendo já cinco milhas por hora. As caracas estavam ficando pelo caminho, a cada limpada melhorava a velocidade. Navegamos mais pela costa do Capão da Marca, para apreciar a paisagem do farol e dali ao Cristovão Pereira. Chegando a boia da ponta do banco, o vento estava bem de proa para o Porto do Barquinho, daria oito milhas dali em proa batendo… ai mudamos os planos , Barquinho ficaria para nossa volta.  Rumamos para o pontal do Santo Antônio para ficar no Birú, pois estava bem forte o vento… e ali é um ótimo abrigo. Só o Pinguinho não pode ir a praia, para seu xixi. Ficamos perto da macega, mas não deu para ir em terra.

O domingo amanheceu com o vento meio forte…Ainda assim  resolvi experimentar. Disse a Maria Teresa: colocamos a cara lá fora, se der seguimos, se estiver ruim voltamos… Saímos uma milha para fora do pontal,  o vento rondou mais para a proa, batia e não se conseguia andar dentro da cabine. Iria judiar do barco e de nós. Resolvemos voltar e seguir para Tapes, onde fomos muito bem recebidos pelo pessoal de terra e velejadores. O Baiano sempre com sua presteza; o Marcelo na secretaria e uma série de amigos que lá deixamos. Ficamos três dias com ventos muito fortes, de nordeste e norte. Na quinta feira seguinte tinhamos uma janela, de um dia com noroeste e oeste , resolvemos largar… seria calmeiro. Realmente atravessamos esse trajeto com noroeste ,norte bem calmeiro, tivemos que fazer ele na grande caçada e no motor, pois tinhamos que entrar o Itapuã antes da virada.

Chegando ao Itapuã, chamamos pelo radio um amigo lá do Iate Clube Itapuã o qual nos disse, que na entrada estava com quarenta centímetros de calado, que  faltaria muita água para o Colibri; vimos que cada vez mais estava enfeiando o tempo. Ai resolvemos tocar a diante …no canal do Junco começou a entrar um ventinho de noroeste e resolvemos ir para a Chico Manoel, pois estava bastante feio. Na altura do morro do Coco começou a chover muito e ventar. Os raios caiam perto…na retranca era uma cachoeira que não se enchergava nada a sotavento de tanta água, a grande encima e o motor acelerado , para escapar daquilo. Quase encima da ponta da ilha entrei na orça,  coloquei a grande embaixo e fui na lenta…  quase capiando por causa da chuva e do vento. A Maria Teresa estava no leme, quando me chamou a atenção a uns trinta metros da onde estavamos tinha uma enorme arvore,  com só umas pontas de fora. Se tivessemos demorado para fazer a manobra de arriar a mestra, poderiamos topar com ela naquele dilúvio.

Chegando a Chico, fomos recebidos pelo Tom, marinheiro do clube, que cuida com muito carinho daquele lugar. Depois de uma boa manobra fomos trocar a roupa, e nos aquecer um pouco. Tinha uma lancha na ilha também se abrigando do tempo. Passamos o final da tarde e a noite toda pulando ali mesmo, com o barco mais aproado na onda dava uns puxões, pois a onda faz a volta nas pedras e  entra na baia da ilha. Choveu toda a noite e ventou cada vez mais .

Na sexta pela manhã estava com chuva e vento, mas resolvemos seguir para Porto Alegre mesmo assim. Fui virar o motor e fiquei sem baterias, algo tinha acontecido mas resolvemos deixar passar o tempo, para seguir só a vela. Ficamos com vento e chuva sexta e sábado. Domingo pela manhã parou de chover e diminuiu o vento, ai nos despedimos do Tom e saimos no remanso da ilha sem vento e rondando de tudo que era lado, até pegar o vento limpo depois das boias do canalete da ilha. Seguimos num través e depois popa,  Maria Teresa tirando muitas fotos,  encantada com aquela paisagem. Chegamos ao Iate Clube Guaiba por volta do meio dia, entramos a vela pelo clube procurando um box vago, encontramos um…arriamos a mestra e embocamos perfeito no box.  Escuto um amigo chamando no rádio outro amigo,  ai chamei e em seguida, ele me disse que mesmo de longe ele me escutava bem. Falei que estava no clube, ai cairam na minha cabeça. Eles estavam me acompanhando desde a entrada e que o churrasco estava me esperando nas churrasqueiras.  Passamos o resto da tarde comendo e colocando as fofocas em dia, muito agradável a acolhida deles.

Na segunda fui revisar o que houve com as baterias, pois coloquei em carga elas e nada adiantou. Não pegaram carga para virar o motor. O amigo Tiago tinha combinado de sair conosco para irmos ao banco, e procurar uma bateria nova. A minha de cento e cinquenta amperes morreu, que chegou a colar a beira de umas placas . O Tiaguinho me disse: vou levar essa bateria para um amigo examinar, depois te digo algo. Sei que em dois dias me trouxe a bateria perfeita, disse que o amigo dele fechou um curto proposital para descolar as placas.  Colocou em um carregador potente, em dois dias de carga a bateria ficou dez!  só coisas do Tiaguinho mesmo.

Depois de uma semana onde estivemos em vários lugares,  convidamos uma amiga que mora em São Leopoldo e trabalha em Porto Alegre para navegarmos no findi. Foi dez; Tiago do Lago Azul, o Flex e outros iriam para o arroio Araça.  Eu como não conhecia, achei o máximo navegar em porto com quem conhece a região como ninguem. Saimos de manha e fomos curtindo o Guaiba, bem calmo com um vento sul só de grande e motor, no calminho. A nossa convidada adorou a navegada. Chegando na enseada do Araça estavam os amigos esperando com outro churrasco embaixo de uma figueira, no lugar chamado Areias Brancas . Chegamos a uns quarenta metros da praia e fundeamos,  o Tiaguinho veio nos buscar num dingue a motor, onde desembarcamos com cadeiras de praia e toda a parafernalha de sempre… fora o Pinguinho, o cão velejador que se soltou e corria por tudo, parecia que o mundo ia acabar naquele lugar paradisíaco…quanta  areia branquinha. Tinha nessa enseada mais de vinte veleiros até onde pude ver ,muito bonito o visual.

A tardinha fomos para a boca do arroio, bem para dentro e tentamos entrar no arroio, mas como esta muito baixo o Guaiba não deu. Nos últimos dez metros faltou uns dez centimetros mais de água, então resolvemos fundear na enseada, com todo aqueles barcos na volta. Muito lindo o visual, eu larguei a âncora e o pessoal amarrou no contrabordo. De um lado o Lago Azul e o Flex , do outro o Santa Fé do novo amigo Vitor. Tiago assumiu a cozinha do Colibri e fez a janta para todo o pessoal…estava uma delícia.  Fomos dormir as duas da manhã, depois de tocar meu violão e alguns arriscaram a cantar. Uma beleza de noite, quente e calma digna de uma filmagem.

No outro dia saímos de Lago Azul e deixamos o Colibri ali fundeado, fomos explorar o arroio já que o Lago Azul é quilha retrátil;  entrou sem problemas no arroio, fomos um bom pedaço para dentro, conhecendo aquele belo arroio.  Ficamos numa barranca com sombra para fazer mais um churrasco, foi muito divertido, passamos um dia divino. Ai as cinco horas voltamos para o Colibri e retornamos a Porto Alegre. Chegamos a noitinha com a alegria de quem passou um belo findi; o Tiaguinho por ele não teria voltado, por mim também, mas a Sara mesmo com vontade de curtir mais, tinha que trabalhar na segunda , então não tinha outro jeito.

Na segunda ou terça a Maria Teresa foi ajudar a filha a se mudar em Campo Bom,  fiquei sozinho a bordo fazendo uns reparos, aceitando convite dos amigos e assim foi. Durante a semana revisei o motor,sem querer deixei uma tremenda falha…  descobri que as baterias tinham perdido carga, porque o alternador soltou um parafuso e aflouxou a correia, mas o mais importante que não fez barulho, e um mau contato na luz indicadora de carga, me enganou. Estava apagada mas não estava carregando, coloquei o soquete da lâmpada nova e regulei a correia, ai foi meu erro …se tivesse trocado a correia não teria dado a confusão que deu ,pois na saída de Porto Alegre para cá funcionou uns dez minutos e rebentou a bendita correia do alternador,  entrou no meio da dentada… conclusão: quatro válvulas enpenadas, além do prejuízo minha mão de obra, mais o atraso da viagem; mais uma vez ,meu amigo  Tiago Padilha me socorreu, me levou numa retífica de um conhecido,  o cara me fez o trabalho,e em menos de 24 horas montei tudo de novo, terminando as duas da manhã, para sair no mesmo dia de manhã. Dito e feito saímos lá pelas dez horas, com o motor em marcha e vento de proa fraco. Depois da Ponta Grossa começou a puxar e bater, resolvemos nos abrigar na Chico Manoel ,mais uma vez visitar o Tom que nos recebeu cordialmente. Quando estavamos passando a Ponta do Arado o fiel escudeiro Pingo, começou a latir lá dentro da cabine.  Sabemos que quando late assim é porque quer nos avisar de algo. Virou alguma coisa; ou água ou combustiel, tem alguma coisa acontecendo. Entramos na cabine sentindo um cheiro de óleo combustível, ai foi que arribamos para a Chico, chegando lá fomos procurar e tinha dado um vazamento em um retorno de um bico. Consertamos na hora, mas ficou  a certeza de que quando o pingo late, tem algo mesmo que não está certo e que ele quer nos mostrar.

Saímos ao amanhecer da ilha com nevoeiro e vento calmo, seguimos ao Itapuã e dali até São Simão; de São Simão rumamos ao Porto do Barquinho chegando a tardinha. Lá entramos  até o antigo trapiche, ali em diante tem uns calombinho mas passa, ficamos numa barranca funda com a proa que dava para descer em terra. A noite choveu quase que toda… parando ao amanhecer .

Saímos do Porto do Barquinho com um vento legal de nordeste, desligamos o motor e fomos até a boia do Cristovão a vela. Ali arribamos em popa e acalmou demais, ai ligamos o motor para ajudar pois queriamos ir até São Lourenço. A boia da ponta do banco do Cristovão esta em terra, onde começa a plantação de pinus. Seguimos rumo Dona Maria e Vitoriano. Chegando a uma milha do Vitoriano começou a baixar muito o barômetro,  resolvemos abortar o rumo de São Lourenço e rumar para Barra Falsa, bem mais perto e um ótimo abrigo. Chegando lá já estava cheio de barcos pesqueiros esperando a porrasca, inclusive um amigo amarrou perto da minha popa,o vento e chuva entraram fortes, o barco é o Sol de Verão. A coisa ficou feia e começaram a chegar vários  barcos, que  se espalharam amarrados ao cais do engenho. Ali também esperamos três dias,  sempre com tempestades vindas de todos os quadrantes. Incrível!  tamanha carga elétrica nas nuvens. Parecia que a mesma tempestade andasse na volta. Estavamos na enseada, quando se aproximou um pesqueiro e me gritou:  primo! queres camarão? Saïmos de dentro da cabine e vi meu primo Zezeca na proa do pesqueiro… me oferecendo camarão; ai disse ok primo, me consegue um pouquinho ; a Maria Teresa passou um bacia e disse coloca um pouquinho aqui… o zezeca encheu a bacia, mas nunca tinha visto camarão tão grande uma loucura! o menor era maior que os maiores aqui em Rio Grande. Fizemos uma janta digna de um marajá, fantastica noite!

Amanheceu feio! mas resolvemos arriscar… pois o vento era de leste,  dava um empopado até a entrada da feitoria ,só teriamos que cuidar as redes ,tamanha quantidade de pesqueiros naquela área. Entrando na feitoria teriamos duas rotas a partir das porteiras; ou seguir o canal da Varzea; ou seguir o canal de navegação. Estava cada vez mais feio para o oeste, então resolvemos ir pelo canal de navegação, pois qualquer coisa entrariamos no São Gonçalo. Também se sabe que pelo canalete da Varzea tem calões e muito paliteiro ,seria complicado com um mau tempo por ali. Chegando a barra de Pelotas o tempo puxou mais para a lagoa, passando pela minha popa ai seguimos para Rio Grande numa bela navegada, o qual chegamos por volta de umas vinte horas .

Percorremos nessa viagem 520 milhas nauticas, saindo dia quatro de janeiro e retornando dia oito de fevereiro.E assim foi mais uma bela navegada do meu amigo Colibri que Deus o conserve para muita água passar por baixo daquele veleiro que depois de algum tempo refaz o percurso e espande a navegada pelos horizontes, se embrenhando no coração do Rio Grande do Sul.Bons Ventos.

  • Newton Ribeiro.

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